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A mostrar mensagens de abril, 2026

Crónica: Escrever sem Guião

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Caríssimos leitores,   Quando me propus a escrever estes textos, tinha uma meta clara: publicar crónicas escritas a cem por cento na minha voz, com uma periodicidade digna desse nome. Uma vez por semana pareceu-me um objetivo perfeitamente razoável — quase modesto, até. E como estou a estudar marketing digital, havia algo que eu já sabia bem: consistência e regularidade são tudo. Na minha cabeça, tudo se alinhava com uma elegância quase irritante. Fazia todo o sentido.   Mas a vida, essa criatura caprichosa, tem o hábito de entrar pela porta sem ser convidada e desarrumar os planos mais bem-ordenados. A verdade é que nem sempre me apetece escrever sobre assuntos profundos ou particularmente sérios. Quem leu a última crónica sabe do que estou a falar. O que eu havia imaginado para este espaço era algo bastante grandioso: temas relevantes e relacionáveis, um lugar seguro — e digno — de partilha sobre assuntos variados. Educação de filhos, vida económica e social, música,...

Crónica: Onicofagia

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     Caríssimos leitores,     Desengane-se quem pensa que a crónica desta semana será um ensaio extremamente científico e eloquente sobre a condição da onicofagia. Estou certa que depois de hoje, ficará bem claro que nem sempre escrevo textos pesados e emocionais. Hoje, a crónica leva-nos antes por uma odisseia profundamente ridícula e embaraçosa, com destino… ao cocó.     Mas antes de avançarmos com detalhes mais coprológicos, deixem-me contextualizar.     Para quem não está familiarizado com o termo, onicofagia é o hábito compulsivo de roer as unhas, frequentemente associado à ansiedade, ao stress, ao tédio ou ao nervosismo.     No meu caso, este mal acompanha-me desde os quatro anos de idade. Atualmente, estou, digamos, em processo de recuperação, mas confesso que este mal afligia-me de forma tão intensa que muitas vezes só me apercebia de que estava a roer as unhas quando sentia, na língua, o sabor metálico a sangue. Apesar d...

Crónica: O Luto por uma Possibilidade Perdida

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               Caríssimos leitores,   Há dias em que a vida nos confronta com verdades que não pedimos para sentir. Recentemente, um exame de rotina revelou que o meu DIU de cobre se encontrava fora do sítio e de eficácia nula. E, desde então, tenho navegado por um turbilhão de emoções, pensamentos e possibilidades que, confesso, se revelou mais desafiante do que a travessia do Cabo das Tormentas por Bartolomeu Dias . Não se trataria de uma gravidez planeada. E talvez seja por isso que tudo isto pesa de forma tão estranha — tão contraditória. Permitam-me contextualizar. Durante muito tempo — talvez sempre — ser mãe não fazia parte dos meus planos. Disse-o, sem rodeios, ainda antes de casar, ao homem que hoje é meu marido. Cresci a acreditar que o meu instinto maternal era escasso, quase inexistente. Via-me como alguém demasiado egoísta, pouco dada à responsabilidade que uma vida exige. Havia, além disso, o mundo. A vontade de o...

Crónica: Nunca é suficiente

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          Caríssimos leitores,   Hoje escrevo-vos como mulher. Já alguma vez tiveram dias em que recai sobre vós a sensação de que nascemos com um relógio nas mãos e um número infinito de pratos no ar? Que somos malabaristas do tempo, mas não há aplausos no fim? Há apenas mais um prato a cair, mais uma tarefa a surgir, mais alguém a precisar. Temos de estar disponíveis para tudo e para todos, sempre prontas, sempre inteiras… exceto quando se trata de nós próprias. Para nós, arranja-se depois. Sempre depois. E nesse “depois” que nunca chega, pedem-nos escolhas que não deveriam existir. Como se amar-nos a nós próprias fosse um ato egoísta. Como se tivéssemos de decidir entre sermos fiéis a quem somos ou sermos dignas do amor dos outros. É uma armadilha silenciosa: se nos escolhemos, somos acusadas de frieza; se nos anulamos, somos celebradas pela entrega. Mas ninguém deveria ter de desaparecer para ser amado. E, no entanto, quantas vezes nos tornam...