Crónica: Nunca é suficiente
Caríssimos leitores,
Hoje escrevo-vos como mulher. Já alguma vez
tiveram dias em que recai sobre vós a sensação de que nascemos com um relógio
nas mãos e um número infinito de pratos no ar? Que somos malabaristas do tempo,
mas não há aplausos no fim? Há apenas mais um prato a cair, mais uma tarefa a
surgir, mais alguém a precisar. Temos de estar disponíveis para tudo e para
todos, sempre prontas, sempre inteiras… exceto quando se trata de nós próprias.
Para nós, arranja-se depois. Sempre depois.
E nesse “depois” que nunca chega, pedem-nos
escolhas que não deveriam existir. Como se amar-nos a nós próprias fosse um ato
egoísta. Como se tivéssemos de decidir entre sermos fiéis a quem somos ou
sermos dignas do amor dos outros. É uma armadilha silenciosa: se nos
escolhemos, somos acusadas de frieza; se nos anulamos, somos celebradas pela
entrega. Mas ninguém deveria ter de desaparecer para ser amado. E, no entanto,
quantas vezes nos tornamos mais pequenas só para caber no conforto dos outros?
Depois há a perfeição — esse fantasma bem vestido que nos persegue. Não podemos falhar. Não podemos carregar traumas visíveis, nem ansiedade à flor da pele, nem tristeza que se note. Temos de ser fortes, equilibradas, resilientes, mas de uma forma bonita, discreta, quase invisível. Sofrer, sim — mas em silêncio. Curar, sim — mas depressa. Como se fôssemos máquinas programadas para funcionar sem falhas, sem ruído, sem dor.
E o corpo… o corpo nunca acerta. Não pode ser
demasiado magro, nem demasiado cheio. Tem de ser saudável, mas também
desejável. Natural, mas trabalhado. Aceite, mas corrigido. É um campo de
batalha onde cada escolha parece errada aos olhos de alguém. Dizem-nos para
respeitar o nosso corpo, mas avaliam-no como se fosse público.
Na maternidade — para quem a escolhe — o
paradoxo continua. Educar com amor, com paciência, com consciência…, mas
cuidado: não sejas permissiva. Sê firme, mas não dura. Presente, mas não
sufocante. E, ao mesmo tempo, constrói uma carreira sólida, sê competente,
ambiciosa, independente. Mas não demasiado. Porque também tens de estar lá —
sempre lá — para os filhos. Como se o dia tivesse mais horas para nós. Como se
não estivéssemos constantemente a dividir-nos em versões de nós que nunca
chegam a ser completas.
E depois vêm os olhares. Os julgamentos. As opiniões tão solícitas (mas nunca solicitadas!) que caem sobre cada decisão que tomamos na vida como chuva fina e persistente. Se trabalhas, és ausente. Se ficas, és acomodada. Se estudas, adias. Se não estudas, limitas-te. Se casas, conformas-te. Se ficas solteira, és incompleta. Se tens filhos, questionam-te. Se não tens, também. Não há escolha neutra. Não há escolhas certas nem caminhos livres de crítica.
E, no meio disto tudo, ainda nos pedem para
sermos tudo: donas de casa, profissionais exemplares, companheiras presentes,
mulheres independentes. Fazemos listas invisíveis, acumulamos tarefas que
ninguém vê, carregamos o peso de um quotidiano que raramente é partilhado de
forma justa. Trabalhamos fora como eles, trabalhamos dentro mais do que eles —
e ainda assim ouvimos que é assim que deve ser. Porque temos de ser
independentes. Porque não podemos depender de ninguém. Porque é isso que
significa ser forte.
Mas há uma exaustão que não cabe em slogans.
Talvez ser mulher, hoje, seja isto: caminhar
numa corda bamba estendida entre expectativas impossíveis. Equilibrar o que
sentimos com o que esperam de nós. E, ainda assim, tentar — no meio do ruído —
ouvir uma voz pequena, teimosa, que insiste em lembrar: tu também importas. Tu
és suficiente.
E talvez o verdadeiro ato de coragem não seja
conseguir fazer tudo. Seja, recusar afogarmo-nos nas lágrimas das dores
invisíveis que carregamos no peito e que mais ninguém conhece.
Seja, simplesmente, recusar desaparecer.
E por ora, fico-me por aqui.
Porque alguém tem de o dizer.
Sempre vossa,
? Lady Cipher

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