Crónica: Escrever sem Guião


Caríssimos leitores,

 

Quando me propus a escrever estes textos, tinha uma meta clara: publicar crónicas escritas a cem por cento na minha voz, com uma periodicidade digna desse nome. Uma vez por semana pareceu-me um objetivo perfeitamente razoável — quase modesto, até. E como estou a estudar marketing digital, havia algo que eu já sabia bem: consistência e regularidade são tudo. Na minha cabeça, tudo se alinhava com uma elegância quase irritante. Fazia todo o sentido.

 

Mas a vida, essa criatura caprichosa, tem o hábito de entrar pela porta sem ser convidada e desarrumar os planos mais bem-ordenados. A verdade é que nem sempre me apetece escrever sobre assuntos profundos ou particularmente sérios. Quem leu a última crónica sabe do que estou a falar. O que eu havia imaginado para este espaço era algo bastante grandioso: temas relevantes e relacionáveis, um lugar seguro — e digno — de partilha sobre assuntos variados. Educação de filhos, vida económica e social, música, humor, saúde mental ou a falta dela. Enfim. De tudo um pouco. Uma espécie de salão literário sem dress code.

 

E confesso: o desafio que me propus está a revelar-se mais difícil do que esperava. A semana passada não escrevi uma letrinha sequer — a vida meteu-se pelo meio, sim, mas não foi o único motivo. A verdade mais honesta é que quem escreve por satisfação própria, como eu, nem sempre sabe o que há de escrever.

 

E aqui entra aquilo que estou a aprender no marketing: quando queremos falar com alguém, temos que saber com quem e para quem estamos a falar. Eu não sei isso. Não sei se do outro lado estão homens ou mulheres, jovens há mais ou menos tempo, trabalhadores, estudantes, desempregados... Nada. Um silêncio total. Um vazio com muito boa acústica.

 

E há qualquer coisa de estranho e simultaneamente libertador em escrever assim — para um público que não vejo, não ouço e não conheço. É um ato de fé, no fundo. Escrever sem garantia de eco. Continuar mesmo sem saber se do outro lado há alguém a receber, a sorrir, a reconhecer-se. É desconfortável. Mas é também a forma mais honesta de o fazer — sem moldar as palavras ao gosto de quem ainda não sei que existe.

 

Por isso continuarei, enquanto isso fizer sentido para mim.

 

E é precisamente essa questão — a de fazer sentido, a de ser genuína — que me leva ao segundo ponto de hoje. Peço desculpa se o tom não é particularmente animador. Mas esta é uma reflexão autêntica do meu estado de espírito, e fingir o contrário seria literalmente o oposto do que defendo.

 

Esta crónica, no fundo, fala de uma coisa só: autenticidade. A luta por publicar na minha voz. A confissão de que é mais difícil do que parecia. E a necessidade de deixar claro — para mim e para quem me lê — que o que escrevo sou, de facto, eu.

 

Hoje, numa das minhas aulas, desabrocharam na minha mente pensamentos inquietantes sobre essa autenticidade e sobre a percepção que o público tem dos meus textos. O tema que os despoletou foi a crescente utilização de ferramentas de inteligência artificial — e como tudo o que representa um avanço tecnológico, tem o seu lado bom e maravilhoso e o seu lado menos simpático.

 

Vou falar-vos do meu caso pessoal. Não consigo viver sem a máquina de lavar roupa. Deus me livre de ter nascido no tempo das minhas avós, quando se lavava a roupa à mão, no rio e no tanque. A máquina de café é outra invenção que eu não dispenso — e o tempo me faltaria para listar tudo o que a tecnologia veio melhorar na nossa vida.

 

Quanto à IA, sou, sem rodeios, bastante a favor. E vou explicar isso de forma simples e visual: eu sei descascar batatas com uma faca. Sei. Gosto? Não. Prefiro um descascador, porque me facilita a tarefa e consigo um resultado melhor. É isso que a IA representa para mim: uma ferramenta que facilita o trabalho, não uma que me substitui.


Utilizo as IAs, sim. Não sou hipócrita para o negar. O logótipo que uso foi criado com ajuda de IA. As imagens que ilustram estas crónicas também — todas feitas de acordo com as ideias que eu idealizei. Mas tal como não uso o descascador para cortar carne, não uso as IAs para escrever.

 

Porque a escrita… a escrita é a minha essência. É o modo como penso, como processo, como me encontro a mim mesma no meio da confusão. Se deixasse que uma IA escrevesse por mim, não perderia apenas a voz — perderia o próprio processo. E é no processo que está tudo. É aí que eu existo.

 

Pedir a uma IA que escreva no meu lugar seria, para mim, tão absurdamente ridículo como fingir um orgasmo. Sei que há quem o faça. Mas eu não me consigo identificar.

 

 O meu marido disse-me algo que me ficou a ecoar na cabeça: quando não conhecemos bem alguém, ou quando nos deparamos com algo de qualidade superior ao esperado, é natural duvidarmos da sua autenticidade. E essa observação abriu-me os olhos para uma possibilidade que antes não me havia sequer cruzado o pensamento — a de que quem me lê pode questionar se estas palavras são mesmo minhas.

 

Garanto-vos que são. Todas elas. Cada parágrafo, cada palavra, cada letra, cada vírgula está impregnada de sentimentos e ideias. Meus, unicamente meus. Por isso, que fique bem claro para todos os que por aqui passarem: os meus textos são tão autênticos, reais e humanos como eu. Imperfeitos, por vezes tortos, mas genuinamente meus. Porque para mim, a escrita tem que ser tão natural como fazer amor — e fingir, em nenhum dos casos, nunca foi opção.

 


E por ora, fico-me por aqui.

 



 

Porque alguém tem de o dizer.

Sempre vossa,

 

?Lady Cipher

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