Crónica: O Luto por uma Possibilidade Perdida


            Caríssimos leitores,

 

Há dias em que a vida nos confronta com verdades que não pedimos para sentir.

Recentemente, um exame de rotina revelou que o meu DIU de cobre se encontrava fora do sítio e de eficácia nula. E, desde então, tenho navegado por um turbilhão de emoções, pensamentos e possibilidades que, confesso, se revelou mais desafiante do que a travessia do Cabo das Tormentas por Bartolomeu Dias.

Não se trataria de uma gravidez planeada. E talvez seja por isso que tudo isto pesa de forma tão estranha — tão contraditória.

Permitam-me contextualizar.

Durante muito tempo — talvez sempre — ser mãe não fazia parte dos meus planos. Disse-o, sem rodeios, ainda antes de casar, ao homem que hoje é meu marido. Cresci a acreditar que o meu instinto maternal era escasso, quase inexistente. Via-me como alguém demasiado egoísta, pouco dada à responsabilidade que uma vida exige.

Havia, além disso, o mundo. A vontade de o conhecer, de o percorrer, de me perder em culturas, sabores e lugares. E, para isso, parecia-me evidente que o caminho passaria por investir em mim, na minha carreira, na minha independência.

Se, por alguma razão improvável, viesse a ter filhos, nunca seria apenas um. Dois, talvez. Um equilíbrio quase matemático. Mas, na verdade, essa hipótese raramente passava de um exercício teórico.

Porque havia ainda uma outra ideia, mais profunda e desconfortável: trazer uma vida ao mundo — a este mundo doente — sempre me pareceu, em certa medida, um ato de violência extremo. Uma decisão tomada por alguém que não pediu para existir.

Assim, a conclusão era simples: a maternidade não fazia parte do meu caminho.

Foi tema de discussão. De muitas na verdade. Defendi a minha posição com convicção, e ele — com uma generosidade que ainda hoje me comove — escolheu ficar, ainda hoje.

Até que, já casados, depois de alguns sustos e testes inconclusivos, surgiram duas linhas vermelhas.

E tudo mudou, mas não de imediato.

 Os nove meses que se seguiram foram vividos num estranho estado de suspensão. Como se o meu corpo tivesse deixado de me pertencer, como se eu fosse apenas um meio, um lugar de passagem. Entre consultas, ecografias e os primeiros movimentos, vivi distante — de mim, do mundo, da realidade.

Só quando o ouvi chorar pela primeira vez, e de forma tão indefesa chamar por mim, é que tudo se tornou inegavelmente real.

“Eu sou mãe.”

E, com essa constatação, vieram as perguntas. As dúvidas. Os medos que nunca chegam com respostas. Vai ser saudável? Serei suficiente? Vou conseguir protegê-lo… prepará-lo… guiá-lo? Vai ser um ser humano decente? Vai ser feliz? Passaram-se dez anos, mas continuo sem respostas.

E voltamos ao presente. Na semana passada, fiz o referido exame que me levou a este turbilhão de emoções e a fazer novo teste de gravidez. A esta espera. A esta possibilidade uma vez mais. E com ela, algo que não estava preparada para sentir. Porque, apesar do entusiasmo do meu marido, eu não queria estar grávida. Já não fazia sentido. Não agora. Não neste momento da minha vida.

Há razões — muitas. O peso da responsabilidade. As incertezas. A minha própria saúde, ou no caso a falta dela. O medo de não ser suficiente, novamente.

Há também a realidade financeira. O facto de, neste momento, estar a investir em mim, na minha formação, sem contribuir com qualquer tipo de rendimento. E, por mais que recuse rótulos simplistas, sei que isso pesa também, e muito.

 Há o meu filho. As suas próprias inseguranças. O impacto que uma mudança destas poderia ter na sua individualidade e no compromisso que tenho já com ele.

E há, ainda, algo que me custa e envergonha admitir: o olhar dos outros. O julgamento. As opiniões sempre prontas. Os olhares de reprovação. A facilidade com que se atribuem rótulos — descuidada, irresponsável — como se a vida fosse linear e previsível.

Adicionar a esta equação ainda um bebé com todas as implicações que isso traz, iria potencializar de forma exponencial toda uma série de medos, ansiedades e dúvidas com os quais não me sinto pronta para lidar.

Com tudo isto dentro de mim, fiz o teste. E o resultado foi negativo. O que deveria ter sido alívio… não foi. Foi tristeza e frustração.

E essa talvez seja a parte mais difícil de explicar e aceitar.

Sempre me vi como uma pessoa guiada pela lógica, pela coerência, pela racionalidade. E, no entanto, ali estava eu — completamente desalinhada com tudo aquilo que acredito ser.

A sofrer por algo que, até então, garantia não querer.

O meu coração chora por uma promessa que nunca chegou a existir.

E, nesse choro — por mais confuso, por mais contraditório que seja — encontrei também um novo tipo de consciência. Se isto dói assim… então quão megalómana será a dor de quem perde um filho que já existia? Não um “e se” hipotético, mas um “foi” tangível.

 O luto perinatal continua ainda, tantas vezes, invisível. Silencioso. Minimizado. E, no entanto, é a perda de um projeto de vida. De um amor que já tinha forma, ainda que invisível aos olhos dos outros.

É uma ausência que a sociedade nem sempre sabe — ou quer — reconhecer. E isso revolta-me.

Vivemos num tempo de grandes sensibilidades seletivas. Onde se elevam certas causas — e bem — mas se ignoram e descartam outras com uma facilidade desconcertante. Onde há espaço para empatia em uns lugares… e um silêncio desconfortável noutros.

Não pretendo, com isto, alimentar discussões. Este nunca será um espaço de confronto — apenas de partilha.

E hoje, o que tenho para partilhar convosco é isto:

Uma tristeza inesperada. Um desapontamento um tanto irracional e difícil de explicar. A confirmação de que nem sempre a vida faz sentido. A dor silenciosa de uma possibilidade que me foi retirada… De algo que eu jurava não querer — até ao momento em que deixou de poder ser.

E por ora, fico-me por aqui.

 

 

Porque alguém tem de o dizer.

Sempre vossa,

 

? Lady Cipher

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