Crónica: Onicofagia
Caríssimos leitores,
Desengane-se quem pensa que a crónica desta semana será um ensaio extremamente científico e eloquente sobre a condição da onicofagia. Estou certa que depois de hoje, ficará bem claro que nem sempre escrevo textos pesados e emocionais. Hoje, a crónica leva-nos antes por uma odisseia profundamente ridícula e embaraçosa, com destino… ao cocó.
Mas antes de avançarmos com detalhes mais coprológicos, deixem-me contextualizar.
Para quem não está familiarizado com o termo, onicofagia é o hábito compulsivo de roer as unhas, frequentemente associado à ansiedade, ao stress, ao tédio ou ao nervosismo.
No meu caso, este mal acompanha-me desde os quatro anos de idade. Atualmente, estou, digamos, em processo de recuperação, mas confesso que este mal afligia-me de forma tão intensa que muitas vezes só me apercebia de que estava a roer as unhas quando sentia, na língua, o sabor metálico a sangue. Apesar de nunca ter enfrentado consequências verdadeiramente graves, (como infecções, problemas dentários ou gástricos), acabei com os dedos deformados e fui muitas vezes gozada por ter “mãos de rã”. E isso, naturalmente, abalava-me a autoestima. Ainda assim, não conseguia largar o vício.
Mesmo quando engravidei, consegui passar alguns meses sem roer as unhas. Mas a recaída acabou por regressar, como regressam quase sempre os hábitos que julgamos adormecidos.
O meu verdadeiro wake-up call aconteceu já depois da pandemia da COVID-19, quando percebi que as minhas oportunidades de empregabilidade estavam a ser afetadas pela imagem que as minhas unhas transmitiam: desleixo, falta de cuidado, ausência de higiene… Nada que correspondesse à verdade. Foi então que decidi bater o pé — e, pela primeira vez, cuidar de mim também nessa área.
Comecei a arranjar as unhas.
Não vos vou mentir: mentalmente, nunca foi algo que fizesse de forma natural, leve e sem culpa. Cresci sem ver esse tipo de autocuidado na minha mãe, cuja relação com a própria imagem era, no mínimo, pragmática. Nenhum profissional de beleza podia contar com ela como cliente: o cabelo era cortado e pintado em casa, a depilação era feita com lâmina, e tudo seguia esse mesmo registo, porque tudo parecia, segundo ela “caríssimo”. Hoje, porém, vejo com clareza que o dinheiro era, muitas vezes, apenas um álibi elegante para a preguiça (mas isso é assunto para outro dia!) Porque cuidar de nós, digam o que disserem, apesar de necessário, dá trabalho.
Mas voltemos ao tema principal.
Ainda hoje travo uma pequena batalha interna com esta ideia
de autocuidado. Cuidar de mim envolve gastar dinheiro, sim — e é precisamente
isso que me desperta culpa. Mas alguém doente também gasta dinheiro em
medicamentos, e ninguém chama isso de luxo. Seja como for, desde então
tornei-me fiel a um ritual: arranjo as unhas religiosamente uma vez por mês. E,
enquanto mantenho esse hábito, consigo conter o impulso de levar as mãos à boca
e manter as unhas com um aspeto minimamente apresentável.
O que nos leva ao verdadeiro desfecho desta epopeia.
Há coisas simples que, para mim, se tornam verdadeiros
desafios logísticos: abrir latas, usar cremes, apanhar objetos do chão. Apanhar
moedas, então, é uma pequena tragédia doméstica. Ter as unhas compridas passou,
na minha vida, de sonho estético a pesadelo funcional. E, hoje, também a um
pesadelo higiénico.
Posso garantir-vos que, a partir do momento em que uma
mulher é mãe, desenvolve uma certa imunidade a odores, substâncias e matérias
de proveniência biológica e, diria até, duvidosa. Ainda assim, hoje o meu
estômago revoltou-se com dignidade quando, depois de responder a um chamamento
da natureza, me vi a limpar as minhas partes pudendas e posteriores e a
perceber que o papel não foi a única coisa a ficar suja e a trazer vestígios.
Apesar da ameaça de vómito iminente, consegui manter o
conteúdo do estômago no respetivo lugar e corri, em velocidade supersónica, até
à caixinha dos utensílios de limpeza, onde procurei uma escovinha de dentes
velha para limpar meticulosamente as unhas com água e sabão, desinfetando-as
depois com todos os produtos possíveis e imaginários.
Com as mãos agora impregnadas daquele cheiro estéril, quase
hospitalar, dei por mim a agradecer por já não roer as unhas. E, ao mesmo
tempo, a refletir sobre o sentido daquele momento — e, consequentemente, da
vida.
Cheguei então à brilhante conclusão de que, por mais cuidado que
tenhamos, quando menos esperamos, acabamos mesmo por ter de mexer no cocó.
E, por ora, fico-me por aqui.
Porque alguém tem de o dizer.

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