Crónica: Millennials - A geração que herdou um mundo em ruínas e mesmo assim ficou


Caríssimos leitores,

 

Hoje trago-vos um retrato de uma geração, a minha, que cresceu a ver muros cair — não apenas o de Berlim, em 1989, mas todos os que nos disseram que delimitavam o impossível. Disseram-nos que o mundo se estava a abrir, que a história caminhava para um fim tranquilo, organizado, quase lógico. Ainda mal sabíamos o que era o mundo, e já ele mudava de forma diante dos nossos olhos.

Vimos impérios desmoronar-se, guerras a começarem com promessas de paz, crises a sucederem-se como estações que nunca chegam a ser primavera. Assistimos ao nascimento da internet como quem vê nascer um deus — da Google, por exemplo, em 1998, junto com a promessa de que tudo estaria ao alcance de um clique. E acreditámos. Acreditámos no milénio que não acabou, no futuro que começava no ano 2000 com mais luz do que sombra.

Mas depois veio o ruído. O 11 de Setembro ensinou-nos que o medo também globaliza. A crise de 2008 mostrou-nos que os números podem destruir vidas. A Troika ensinou-nos a palavra “austeridade” antes de aprendermos a palavra “estabilidade”. E, mais tarde, uma pandemia parou o mundo inteiro, como se alguém tivesse desligado o som da humanidade por dois anos. Quando voltámos a ouvir, já não éramos os mesmos.

Prometeram-nos um caminho simples: estudar, trabalhar, conquistar. Casa própria, carreira estável, reconhecimento. Prometeram-nos igualdade, impacto, propósito. Disseram-nos que seríamos a geração que moldaria o futuro — e talvez sejamos. Mas não da forma que imaginávamos.

Porque o que recebemos foi outra coisa.

Recebemos precariedade sob a forma de contratos frágeis e salários que não acompanham o cansaço. Recebemos uma vida em suspenso, onde comprar uma casa ou abastecer o depósito de combustível do carro parece um luxo quase obsceno. Aprendemos a fazer contas à carne e ao peixe, à fruta e ao pão — não por escolha, mas por necessidade. Crescemos com a sensação de que estamos sempre a um passo de cair, mesmo quando estamos parados.

Recebemos também o invisível: o peso. Ansiedade que não se explica, depressão que não se vê, burnout que se normaliza. Tornámo-nos especialistas em sobreviver a nós próprios. Somos sustentados por analgésicos, antidepressivos e ansiolíticos — como se a solução estivesse sempre em ajustar o indivíduo, nunca o sistema.

E, no meio disso tudo, fomos também a geração que viu o mundo acelerar até perder o fôlego. Do vinil ao streaming, do silêncio ao excesso. Tudo aconteceu demasiado rápido. O futuro chegou — mas as respostas não vieram com ele. 

Venderam-nos uma ideia utópica. Entregaram-nos um produto com defeito. E não há talão de devolução.

E ainda assim, exigem-nos tudo.

Que sejamos resilientes, inovadores, empreendedores — mesmo quando estamos exaustos. Que durmamos bem, comamos melhor, façamos exercício, cuidemos da mente e do corpo, como se o tempo fosse elástico. Que sejamos empáticos, conscientes, inclusivos, atentos a todas as causas, a todas as dores, a todas as identidades. Temos de ser tolerantes e compreensivos com toda a fluidez de género e todas as 5973 orientações e identidades sexuais, porque agora a pessoa pode acordar um dia e decidir que a partir desse momento se identifica com uma batata e que agora só sente atração por semáforos. E tem que estar tudo bem e ser tudo normal. Temos a obrigação de amar sem falhar, de educar sem errar, de viver sem quebrar.

E, acima de tudo, de ser felizes. Sempre. Visivelmente. Publicamente.

Porque a tristeza não tem lugar no feed.

Vivemos com culpa — por não sermos suficientes, por não fazermos mais, por não conseguirmos acompanhar. Com medo constante de falhar, de ser julgados, de não corresponder. Como se estivéssemos sempre em avaliação, sempre em risco de reprovar numa vida que nunca nos foi bem explicada.

E, no entanto, continuamos. 

Somos uma geração de sobreviventes sofisticados — autênticos “Rambos” da selva urbana, hiper estimulados, cansados, mas atentos. Pedem-nos omeletes sem ovos. Pedem-nos que sejamos melhores do que todos os que vieram antes.

E nós tentamos.

Às vezes conseguimos. Outras vezes não. Há dias em que vencemos, há dias em que apenas resistimos. Mas há uma coisa que não nos tiraram — a capacidade de continuar.

Talvez seja isso que nos define. Não o sucesso prometido, nem o fracasso insinuado. Mas a persistência silenciosa de quem, mesmo sem mapa, (e muitas vezes forças), persiste e continua.

 

E por ora, fico-me por aqui.

 

 

Porque alguém tem de o dizer.

Sempre vossa,

? Lady Cipher 

Comentários

  1. Sabes que mal abria as pestanas e já estava no meio de uma revolução, desta feita a revolução das mais importantes senão a mais importante que mudou um regime no nosso país... passámos a viver em democracia. agora uma manhã destas enquanto tomava o meu café percebia e comentava para mim e com os meus botões..."sou do tempo das maquinas de escrever..." tenho o som gravado na minha memória, não sai é impossível... pois realmente isto evoluiu tudo muito depressa... e sem darmos conta aos poucos vamos esbanjando aquilo que nos foi dado de mão beijada... a dita democracia... virão tempos de muito mais incerteza e teremos de estar preparados. Não me vou alongar mais e aproveito uma vez mais para te dar os parabéns pela tua escrita fluente, bem conseguida e atual... bjinhos.

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