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Crónica: O Luto por uma Possibilidade Perdida

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               Caríssimos leitores,   Há dias em que a vida nos confronta com verdades que não pedimos para sentir. Recentemente, um exame de rotina revelou que o meu DIU de cobre se encontrava fora do sítio e de eficácia nula. E, desde então, tenho navegado por um turbilhão de emoções, pensamentos e possibilidades que, confesso, se revelou mais desafiante do que a travessia do Cabo das Tormentas por Bartolomeu Dias . Não se trataria de uma gravidez planeada. E talvez seja por isso que tudo isto pesa de forma tão estranha — tão contraditória. Permitam-me contextualizar. Durante muito tempo — talvez sempre — ser mãe não fazia parte dos meus planos. Disse-o, sem rodeios, ainda antes de casar, ao homem que hoje é meu marido. Cresci a acreditar que o meu instinto maternal era escasso, quase inexistente. Via-me como alguém demasiado egoísta, pouco dada à responsabilidade que uma vida exige. Havia, além disso, o mundo. A vontade de o...

Crónica: Nunca é suficiente

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          Caríssimos leitores,   Hoje escrevo-vos como mulher. Já alguma vez tiveram dias em que recai sobre vós a sensação de que nascemos com um relógio nas mãos e um número infinito de pratos no ar? Que somos malabaristas do tempo, mas não há aplausos no fim? Há apenas mais um prato a cair, mais uma tarefa a surgir, mais alguém a precisar. Temos de estar disponíveis para tudo e para todos, sempre prontas, sempre inteiras… exceto quando se trata de nós próprias. Para nós, arranja-se depois. Sempre depois. E nesse “depois” que nunca chega, pedem-nos escolhas que não deveriam existir. Como se amar-nos a nós próprias fosse um ato egoísta. Como se tivéssemos de decidir entre sermos fiéis a quem somos ou sermos dignas do amor dos outros. É uma armadilha silenciosa: se nos escolhemos, somos acusadas de frieza; se nos anulamos, somos celebradas pela entrega. Mas ninguém deveria ter de desaparecer para ser amado. E, no entanto, quantas vezes nos tornam...

Crónica: Millennials - A geração que herdou um mundo em ruínas e mesmo assim ficou

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Caríssimos leitores,   Hoje trago-vos um retrato de uma geração, a minha, que cresceu a ver muros cair — não apenas o de Berlim, em 1989, mas todos os que nos disseram que delimitavam o impossível. Disseram-nos que o mundo se estava a abrir, que a história caminhava para um fim tranquilo, organizado, quase lógico. Ainda mal sabíamos o que era o mundo, e já ele mudava de forma diante dos nossos olhos. Vimos impérios desmoronar-se, guerras a começarem com promessas de paz, crises a sucederem-se como estações que nunca chegam a ser primavera. Assistimos ao nascimento da internet como quem vê nascer um deus — da Google, por exemplo, em 1998, junto com a promessa de que tudo estaria ao alcance de um clique. E acreditámos. Acreditámos no milénio que não acabou, no futuro que começava no ano 2000 com mais luz do que sombra. Mas depois veio o ruído. O 11 de Setembro ensinou-nos que o medo também globaliza. A crise de 2008 mostrou-nos que os números podem destruir vidas.  A Tro...

Bem vindos às crónicas "Lady Cipher's Society Papers"

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  Caríssimos leitores,   Antes de me apresentar como manda a etiqueta — ainda que, nos dias de hoje, ela seja mais sugestão do que regra — permitam-me um pequeno esclarecimento: o conteúdo que têm agora diante do vosso olhar atento não é, de forma alguma, uma imitação apressada, nem tão pouco uma tentativa de reproduzir o génio da inesquecível criação de Julia Quinn . É, antes, uma homenagem — discreta, mas sentida — ao poder que uma mulher, ainda que fictícia, conseguiu construir apenas com o uso da palavra, e que com ele mudou o mundo.   Porque, convenhamos, a nossa amada Lady Whistledown pode não existir fora da ficção, mas o impacto que deixou em tantos de nós é bem real. Tornou-se, quase sem esforço, prova viva de que a velha máxima continua atual: a caneta — ou, neste século, talvez o teclado — continua a ser mais poderosa do que a espada. A coragem de quem observa em silêncio e, ainda assim, decide falar… isso, meus caros, não passa despercebido. E tudo is...